Mas o personagem central da obra não é Darwin, mas sim Robert FitzRoy, o comandante da expedição. A história começa contando como FitzRoy, um jovem promissor recebe o comando do Beagle para uma expedição na América do Sul. Embora a viagem que levou Darwin, a segunda de FitzRoy no Beagle, seja o foco da narrativa e consuma quase metade do livro, pode-se dizer que esta é uma espécie de biografia romanceada de FitzRoy; pois conta toda a vida do comandante após a viagem.
Tanto Darwin quanto FitzRoy no começo são cristãos extremamente devotos e acreditam piamente nas Sagradas Escrituras. Darwin, aliás, cursava a faculdade mas tinha intenção de virar clérigo após se formar. Mas a viagem, que tinha por objetivo fazer a cartografia da região da Patagônia e coletar espécimes de animais desconhecidos para catalogá-los, parece mudar a cabeça do jovem cientista. São muitos e extremamente bem elaborados os diálogos filosóficos entre FitzRoy e Darwin, nos quais o comandante está sempre defendendo sua fé enquanto o cientista começa a colocar em dúvidas a própria existência de Deus.
FitzRoy pode não ter se tornado tão famoso quanto Darwin, que definitivamente mudou a comunidade científica. Mas FitzRoy também teve seus méritos. Suas cartas de navegação da América do Sul desenvolvidas na viagem foram extremamente precisas, e só ficaram obsoletas mais de 150 anos depois, quando as fotos de satélite permitiram obter maior acurácia. Foi ele também o primeiro homem a pensar em fazer previsão do tempo através da observação das correntes de ar; previsões essas que certamente até hoje salvam muitas vidas.
No entanto, é triste percebermos através do livro como picuinhas e brigas políticas podem acabar com boas ideias e com boas pessoas. Mais que isso, como pessoas competentes podem ser relegadas em função de outros interesses. E da mesma forma que muitos herois de verdade ficam no anonimato, certamente a História está cheia de falsos herois.
Um livro que não só nos traz ao conhecimento este ilustre personagem, como também retrata muito bem a visão do mundo antes e depois de Darwin. Isso sem falar na maneira extremamente realista como os fatos são colocados. Como se não bastasse, é uma delícia de ler. Uma pena que tenha sido o único livro escrito por Harry Thompson, que morreu pouco após a publicação. Leitura obrigatória para todos os fãs de ficção histórica.

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